Eu nunca imaginei que poderia viver sem ela, mas estou aqui. Sem todas elas na verdade.
Por um motivo que ninguém compreende, levantamos de nossas camas solitários, e nosso café não estava posto, nossas camisas não estavam passadas, conversei com meus colegas no serviço. Estranhamente as faxineiras sumiram, assim como as recepcionistas e secretárias que só sabiam matar o tempo ao telefone ou retocando maquiagem.
Eu queria uma maldita boceta, mas agora eu tenho é ódio de tudo o que ela carrega.
Quando percebemos a dimensão, a cidade tornou-se cinza, quanto aos campos eu não sei, pouco via o jornal, conto o que presenciei apenas. Muitos animais (fêmeas) foram mortos. Nós enfiávamos nossos paus em qualquer buraco que lembrasse mulher. E como éramos maioria, a bicha que se manifestasse era morta. Lembro bem de uma daquelas bem histéricas que entrou na frente de uma cabra tentando defendê-la, quebramos o dente dele (o que machucou um pouco alguns paus mais delicados), o amarramos de bruços no chão, nós fodemos a cabra na frente dele e fodemos ele enquanto assistia. Como foi divertido! Nós riamos tanto! Um de nós passou a filmar, desde então passamos a ter vídeos de comédia nas terças a noite, enquanto comíamos algum bicho assado, que já tinha nos saciado de outras formas antes de morrer.
O governo tentava apaziguar nossos ânimos com pornografia gay, porque a pornografia pra macho nos deixava ainda mais doidos. Todas essas arregaçadas nos deixaram, por troca do quê? Pirocas galácticas?
Então, todos nós sentíamos medo de tornar-mos bichas…como não sermos bichas quando só tem homem? Isso consumia nossa sanidade. Qualquer homem que falava um pouco mais fino merecia a morte, uma boa foda antes de morrer para aprender a ser mais macho era sua punição.
A cidade ficou mais suja e quase todo lugar fedia porra, mijo e sangue. E nesse desespero com quem íamos extravasar?
Não existiam mais putas e amantes para metermos, não existiam namoradas e esposas para metermos menos, nem mães para nos mimar, alimentar, dizer que somos seus bebês, seus meninos.
O caro leitor moralista pode me achar brutal, mas sou apenas alguém com carência afetiva que não exerce mais seu poder e precisa compensar isso de alguma forma.
Qual é a utilidade de um líder sem seu povo para governar? Qual a utilidade de um homem sem uma mulher que o erga, o erga na medida em que se retrai, comprime e se adéqua silenciosa, com um sorriso feliz em olhos tristes?
Eu tinha um vizinho muito magricela, era loiro e tinha os lábios como cerejas reluzentes. Comentei com meu chefe em um bar, ele disse que tinha uma idéia brilhante.
Foi em uma quarta quente, quando o magricela saía com seus fones de ouvido para caminhar, foi bem rápido, o sedamos e colocamos no furgão, de lá fomos imediatamente a minha casa. Tudo estava pronto, a mesa, o bisturi, os aparelhos, o soro.
O doutor apertou minhas mãos com um sorriso no rosto, as costas de sua mão eram muito peludas e seus pêlos eram alinhados e simétricos, não sei se ele as penteava…enquanto ao redor de sua boca a barba era amarelada pelo fumo. A cirurgia me deixou muito apreensivo.
Perdera muito sangue e quase desmaiei ao ver seu mamilo como tampa, enquanto era preenchido com silicone, mas a boceta ficou tão perfeita…
É claro que eu não tinha dinheiro e é óbvio que aceitaria dividir minha pequena com eles.
Tudo foi muito bem acertado, existiam câmeras para que ela não tentasse nenhuma besteira, eu recebia alguns colegas e deixava que eles se divertissem um pouco. Com uma quantia módica, ela desfilava pra eles.
Todo domingo era dia de desfile, comprávamos lindas lingeries e logo ela se habituou a usar salto, na verdade ela só chorava ás vezes quando chupava nosso paus em grupo, certa vez até mordeu meu colega. Nós paramos tudo, pegamos algumas garrafas e enfiamos para ela aprender a se comportar. Com o passar do tempo não falava, e andava moribunda pela casa, não queria nem se maquiar…a comida começou a ficar sem graça…ela precisava de uma amiga, nós de um novo brinquedo.
Os usuários da minha pequena passaram a sugerir novos (possíveis) brinquedos, mandavam fotos de homens e jovens andando pela rua, nós estudávamos sua rotina e em pouco tempo (para recuperar-se da cirurgia), passavam por adestramento e pronto. Entregávamos em domicílio.
Alguns jovens de traços delicados forjavam barbas toscas ao sair de casa, com receio de serem descobertos por um admirador.
Logo descobri que o Dr. se tornara ainda mais rico, ele atendia a domicílio e quase todo grupo (nos conhecíamos por “células”), tinha sua Pretty Doll. Por algum dinheiro você podia escolher um modelo e eles faziam uma ao seu gosto. Não era claro se a Pretty Doll era voluntária ou não. Alguns pais, transformavam seus filhos em Pretty Dolls para revendê-los no mercado, muitos deles continuávam cada vez mais femininos, algumas se tornavam agenciadoras de Pretty Dolls.
Depois de certo tempo, nos tornamos um pouco mais “controlados” e nem precisávamos correr atrás das Pretty Dolls, elas corriam até nós oferecendo seus serviços, é claro que há quem prefira caçar sua Pretty Doll a moda antiga, mas convenhamos que é muito mais prático e econômico pagar para ter sua própria por uns minutos.
Uau, Debora! Forte, hein? Gostei desse seu mundo apocalíptico! Quer dizer, não gostei nem um pouco do mundo. Mas vc escreve muito bem! Que bom que vc teve a coragem de publicar seus contos. Vc já participou de algum concurso literário?
Oi Lola,
Nunca participei. Mas o bom da internet é essa liberdade de dizer o que pensa. Que editora ia publicar o que eu escrevo?
Caramba, Débora, seus contos me emocionaram bastante…
como é triste ser mulher em um mundo onde não somos mais do que vaginas [ou melhor, "bocetas"] à mercê do homem…
esse mundo sem mulheres iria acontecer bem como você descreveu, os homens iriam reproduzir o modelo do que fazem conosco hoje…não iriam mudar nada, a não ser que algum lá refletisse sobre o que está nas entrelinhas do ocorrido.
Parabéns pelos blog, e pelo conto em especial..
Bjs,
carpe diem
Acho legal vc tomar uma iniciativa dessas, falando sobre a importancia da mulher nos tempos atuais, mas no seu conto não é so as mulheres que sofrem os homosexuais também, e eu queria saber a sua opinião sobre os homesexuais em relação a tudo isso, ja que eles sofrem por serem afeminados.
Creio que isso tem relação com as atribuições negativas que fazem ao “feminino”.
Um homem “afeminado” sofre muito preconceito por “abrir mão” do que esperam dele e “descer o nível” até uma escala baixa, que é onde a mulher se encontra.
Apoio a luta contra a homofobia, sou bissexual e tenho muitas amigas lésbicas e amigos gays